Resumo e adaptação de fala proferida no webinário ¿Democracia o Discriminación? El Rol Político de los Algoritmos desde la Perspectiva de las Mujeres Negras Latinoamericanas, organizado pelo Comitê Global e o Comitê de Tecnologia da Marcha de Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver (20/10/2025)

Mulheres negras sempre tiveram que pensar à frente do seu tempo. Não por que queriam, mas por sobrevivência – por resistência. Diante da constante opressão e subjugação de sua existência, não houve alternativa a não ser sonhar com futuros até então distópicos. Onde a opressão não é o padrão, onde corpos marginalizados possuem seu espaço reconhecido e assegurado, onde pessoas negras têm sua dignidade elevada. É necessário ousar imaginar futuros aparentemente inalcançáveis para poder encontrar caminhos de enfrentar a realidade presente.

Este lugar social diferenciado já foi abordado por nós mesmas. Quando Patricia Hill Collins fala da outsider within e a capacidade de mulheres negras que, marginalizadas na sociedade, possuem um ponto de vista que jamais será alcançado por quem está no centro. Quando bell hooks aponta que pessoas negras pertencem ao todo, mas à margem do todo, e que por isso conseguem ver a realidade de outra maneira. Quando mesmo no quarto de despejo da sociedade, Carolina de Jesus desnuda de forma nítida o tratamento desigual que é relegado ao povo periférico. Todos esses momentos consolidam o poder que mulheres negras têm de nomear realidades e apontar para novas estradas.

Em um momento em que a corrida pelo avanço da IA tem servido sobremaneira para a criação e disseminação de ferramentas que sofisticam e potencializam a discriminação racial, são novamente as mulheres negras as responsáveis por apontar os problemas. É Safyia Noble que, em 2015, compartilhará seus estudos sobre a forma com que mecanismos de busca, como o Google, colaboram para a perpetuação de estereótipos e visões racistas sobre mulheres negras. São Joy Buolamwni e Timnit Gebru que apontarão de forma inaugural os níveis de falha escandalosos que sistemas de reconhecimento facial têm na intersecção entre raça e gênero.

E é a criação do Comitê de Tecnologia da Marcha de Mulheres Negras que propõe, hoje, uma oposição radical à perpetuação do racismo em novas tecnologias. Como um chamado para disputar o futuro da tecnologia que, não raro, é dado como pronto e indiscutível, o movimento de mulheres negras tem a ousadia de reivindicar, como lema, a reparação e bem viver enquanto aspectos fundamentais num mundo cada vez mais digitalizado. Distanciando-se de uma abordagem tecnosolucionista, o Comitê questiona quem cria a tecnologia, para qual finalidade e quais serão seus beneficiários. E vai além: busca apresentar princípios e pressupostos básicos para a construção de sistemas algorítmicos capazes de emancipar e impulsionar os indivíduos.

Isso me lembrou o poema que Conceição Evaristo fez em homenagem a Beatriz Nascimento e que já revelou ter escrito após uma noite de bebedeira entre as duas. Após um evento em que Conceição entregou à Beatriz seu pró labore, ambas teriam gastado seus dinheiros bebendo em diferentes regiões da cidade do Rio de Janeiro. O poema , que fala da resistência e da força das mulheres, foi coincidentemente gerado após uma noite bem aproveitada e divertida entre amigos. Para mim, isso é a prova mais evidente de que não há luta sem descanso, de que não há resistência sem prazer ou, em outras palavras, de que não há reparação sem bem viver.


A noite não adormece nos olhos das mulheres, por Conceição Evaristo

Em memória de Beatriz Nascimento

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede.

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