“Quando você compartilha o saber, o saber só cresce”.

Nêgo Bispo.

Foi essa frase de Nêgo Bispo que ecoou na minha mente enquanto eu moderava o workshop IA Antirracista: Perspectivas, Práticas e Processos, realizado pela Desvelar, com apoio do Goethe-Institut São Paulo.

A proposta era de peso: o evento tinha como objetivo reunir especialistas do Brasil para contribuir ao projeto Shaping AI: Ethics, Power, Responsibility, realizado pelo central na Alemanha do Goethe-Institut, em parceria com a Bundeszentrale für Politische Bildung (BpB, Agência Federal para Educação Política). Desde já, agradeço ao Goethe-Institut, pelo apoio e confiança nesse projeto, principalmente nas pessoas de Sven Mensing, Bibiana Nilsson e Patricia Oliveira.

A ideia era promover um intercâmbio estruturado entre perspectivas internacionais sobre o desenvolvimento e a aplicação de IA, com foco no combate ao racismo, e agentes da educação política na Alemanha. A proposta não partiu de posições fixas, mas sim da criação de espaços onde experiências, práticas e conhecimentos diversos pudessem ser compartilhados, visibilizados e desenvolvidos coletivamente.

O foco central foi de entender como tecnologias digitais em contextos pós-coloniais reproduzem desigualdades e quais contrapropostas vêm sendo desenvolvidas em diferentes regiões. Além de países como África do Sul, Índia e Coreia do Sul, a expertise brasileira era especialmente valorizada e ficou a cargo da Desvelar conduzir o encontro no país.

Enquanto pesquisadora colaboradora do coletivo de pesquisa, participei ativamente da organização e condução da construção do workshop, mas não fiz isso sozinha. Contei com uma equipe formada por Gustavo Souza e Juliane Cintra, ambos pesquisadores colaboradores da Desvelar também.

Para atender aos objetivos do projeto do Goethe, nós tínhamos, pelo menos, três etapas principais:

  1. Definição de metodologia orientada à escuta qualificada e ativa

Para orientar o desenvolvimento de uma IA antirracista, percebemos primeiro a necessidade de se entender o contexto atual. Para isso, os blocos iniciais foram orientados a identificar tanto as principais demandas e prioridades no combate ao racismo na IA e novas tecnologias, como para compreender as raízes desses problemas e o conceito de inovação tecnológica vigente.

Na segunda metade do workshop, a construção assumiu o caráter mais propositivo, no sentido de pensar estratégias, princípios e recomendações para o desenvolvimento de uma IA antirracista. Tudo isso olhando para os quatro setores da sociedade: empresas, academia, governo e terceiro setor.

2. Definição dos convidados e convidadas

Falar de perspectivas brasileiras sobre determinado tema é sempre um desafio. Em especial, porque o Brasil é um país de dimensões continentais, em que as culturas locais mudam profundamente de norte a sul e leste a oeste. Falar sobre inteligência artificial, por sua vez, também é desafiador, pois enquanto uma tecnologia transversal, não é possível analisá-la somente a partir de um único campo do conhecimento.

Pensando nisso, convidamos especialistas de diferentes gêneros, regiões e áreas de atuação no país, chegando a uma composição de pessoas negras que trabalham com Mercado de Trabalho de Tecnologia, Computação, Direito, Psicologia, Ciências Sociais e Comunicação, além de virem de diferentes estados brasileiros.

Deivison Faustino, Silvana Bahia, Tarcizio Silva, Cássia Rosa, Thiane Neves Barros e Pedro Diogo Carvalho Monteiro foram os nossos nomes finais e essa escolha foi fundamental para a riqueza dos debates.

3. Construção de consensos e registros de dissensos e pontos a aprofundar

Com a realização do workshop nos dias 2 e 3 de dezembro, eu, Gustavo e Juliane tínhamos a missão de buscar localizar os consensos, dissensos e pontos a aprofundar em todos os blocos de debate. A ideia de dar o mesmo destaque para pontos que não estavam pacificados foi um movimento de valorização da diversidade e riqueza dos debates, que não se esgotariam no workshop e deixariam portas abertas para que mais pesquisadores pudessem se somar no futuro.

Como resultado disso tudo, ainda neste mês concluiremos um relatório com a síntese de todas as conversas e publicaremos no site da Desvelar no início de 2026 (o ano que vem já está quase ali!). Fique de olho em nossas redes sociais para saber desse lançamento.

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